31/08/2025 | Por: Conecta Parauapebas e Região
Foto/divulgação
Enquanto bilhões são prometidos para transformar Belém em vitrine internacional da Amazônia, mais de 7 milhões de paraenses continuam sem coleta de esgoto e quase 4 milhões vivem sem água tratada. Sustentabilidade para o mundo, descaso para dentro.

A ferida escondida sob o tapete
De acordo com dados de 2022, 48,9% da população do Pará não tem acesso à água tratada — cerca de 3,97 milhões de pessoas. Em regiões como o Marajó e o Sudoeste Paraense, a exclusão é ainda mais dramática, atingindo mais de 68% dos moradores.
No caso do esgotamento sanitário, a situação é ainda mais escandalosa: 91% da população vive sem coleta de esgoto, ou seja, mais de 7 milhões de paraenses convivem diariamente com dejetos a céu aberto, valas negras cortando ruas e rios contaminados.

Esses números não são apenas estatísticas. Eles representam crianças bebendo água barrenta, famílias adoecendo por doenças de veiculação hídrica e comunidades ribeirinhas vendo seus igarapés transformados em esgoto.
A maquiagem da COP
Enquanto isso, os preparativos para a COP seguem acelerados. O governo promete transformar Belém em vitrine internacional da Amazônia, com obras bilionárias em mobilidade, revitalização de áreas históricas e modernização da infraestrutura turística.
Mas, para quem vive nas periferias da capital ou no interior do estado, a sensação é de abandono. A crítica é inevitável: a COP 30 corre o risco de se tornar um espetáculo de maquiagem urbana, escondendo o verdadeiro colapso do saneamento no Pará.
A ironia da sustentabilidade sem saneamento
Há uma ironia cruel nisso tudo. Falar de preservação ambiental enquanto rios são diariamente contaminados por esgoto sem tratamento é uma contradição. Defender a vida na Amazônia enquanto milhões de paraenses vivem sem água potável é uma piada de mau gosto.
O Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, fala em universalizar o acesso até 2033. No Pará, essa meta parece um sonho distante. Sem investimentos maciços e planejamento de longo prazo, o futuro seguirá repetindo o presente: promessas no papel e esgoto correndo pelas ruas.
A piada acontece aqui
Enquanto líderes globais pousarem em Belém para discutir o futuro do planeta, a piada acontecerá no quintal paraense. Não haverá sustentabilidade verdadeira enquanto milhões de cidadãos permanecerem sem o básico. Não se constrói discurso ambiental sólido sobre o alicerce frágil do descaso social.
Se a COP 30 quiser deixar um legado real, o debate precisa ir além das palmeiras enfeitadas e dos discursos bem ensaiados. É preciso encarar o que incomoda: saneamento básico é também questão ambiental.
Do contrário, o evento corre o risco de passar para a história como um grande palco de hipocrisia — e, para o povo do Pará, como a lembrança amarga de que, mais uma vez, foram esquecidos em nome de uma festa para os de fora.
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